O QUE DISSERAM SOBRE ALFRED HITCHCOCK

Seleção, Organização e Edição: Marco Aurélio Lucchetti

Pedro Maciel Guimarães: A carreira de Hitchcock é cheia de mulheres com as quais o diretor estabelece colaborações, sobretudo as atrizes. Mas, por trás das câmeras, outras profissionais foram também essenciais para a construção do mito hitchcokiano. A roteirista e continuísta Alma Reville (Alma Lucy Reville, 1899-1982), que foi casada com o diretor por mais de quarenta anos, é uma dessas figuras. Alma Reville participou de filmes de outros diretores, também como roteirista; mas nada se compara à sua colaboração com Hitchcock, com quem foi casada até a morte do cineasta em 1980.

Alfred Hitchcock, acompanhado por sua esposa, Alma Reville.

José Lino Grünewald: Num ensaio publicado há tempos – As Serpentes e o Caduceu –, o cineasta francês Alain Resnais procurou definir as duas vertentes básicas do Cinema, ou seja, realismo e fantasia, estabelecidas desde o início pelos pioneiros da assim denominada Sétima Arte: Lumière e Méliès. O primeiro abria as portas para a tendência do documentário; o segundo, para aquela da ficção. Desnecessário dizer que Alfred Hitchcock incorporou-se plenamente a esta última e de maneira especial.
Jaime Rodrigues: Alfred Joseph Hitchcock nasceu em Londres, Inglaterra, a 13 de agosto de 1899. Era filho de um próspero comerciante de verduras, natural de Essex. Dois períodos dividem sua carreira: o inglês e o americano, sem que um se desligue do outro.

Uma cena de Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent, 1940), um dos primeiros filmes que Hitchcock realizou nos Estados Unidos.

Sérgio Augusto: Seus conterrâneos o esnobaram. Uma rara exceção: Graham Greene, crítico de Cinema do The Spectator, entre 1931 e 1939.
Jaime Rodrigues: A obra hitchcockiana é importante, desde que ela foi iniciada. E, se alguns filmes se destacam na sua filmografia, em todos ele deixou a sua marca inconfundível. Suspense e Humor, estes os traços inconfundíveis de seu estilo. De raros trabalhos hitchockianos, diga-se de passagem, estão ausentes estes dois pontos básicos de sua obra. No mais, uma inteligência e uma sensibilidade permanentes.
José Lino Grünewald: Hitchcock afirmou: “Eu sou, pode-se dizer, como um pintor que pinta flores. É o modo de tratar as coisas que me interessa. Mas, por outro lado, se eu fosse um pintor, diria: ‘Só posso pintar aquilo que contém uma mensagem.’ A manifestação óbvia, simples, encerra sutileza via metáfora e correlação de aparentes heterogeneidades. E a permanente troca de estímulos entre fundo e forma e vice-versa.
Alfred Hitchcock: O único meio de me livrar de meus medos é fazer filmes sobre eles.
J. C. Ismael: Em 1983, o biógrafo norte-americano Donald Spoto publicou uma biografia de Hitchcock que horrorizou os admiradores do cineasta. Nela, Hitchcock é descrito como uma pessoa mesquinha, maldosa, rancorosa, egoísta. Enfim, alguém que ninguém gostaria de ter como amigo e muito menos como inimigo. Mas Spoto justifica esses desvios de caráter com a justificativa de que, se o seu biografado fosse uma pessoa “normal”, iria lhe faltar sensibilidade para criar suas inesquecíveis personagens, cujo fascínio reside precisamente nesses desvios. O assassinato o fascinava. Como Thomas De Quincey, via nele uma das belas artes. “O assassinato é meu tema predileto, já que o amor é uma palavra cheia de suspeita.”

Em Cortina Rasgada (Torn Curtain, 1967), na sequência em que o prof. Michael Armstrong (Paul Newman) luta com um agente comunista, o sinistro Hermann Gromek (Wolfgang Kieling), Hitchcock procurou demonstrar o quanto é difícil matar uma pessoa.

Alfred Hitchcock: Deve-se filmar assassinatos como cenas de amor e cenas de amor como assassinatos.
Edmar Pereira: Sem nunca ter ganho um Oscar – a não ser aquele que a Academia concede aos injustiçados, como homenagem e pedido de desculpas –, Alfred Hitchcock tornou-se o mais conhecido e o mais bem-sucedido entre todos os diretores na história do Cinema. Gordo, gentil, um pouco baixo e um pouco avarento, dono de peculiar senso de humor, usou como matéria-prima de seus filmes tanto a mais delirante fantasia quanto os temores mais sombrios do homem.
Ely Azeredo: E atenção para o equívoco tão corrente: Hitchcock é um mestre, um inventor, um cineasta genial, e não apenas “o mestre do Suspense”. Hitchcock é o mestre da sedução e da traição das aparências.
T. G. Novais: Nos filmes de Hitchcock, tudo não passa de um jogo de aparências. E o mais claro exemplo disso pode ser encontrado em sua penúltima fita: Frenesi (1972).
Edilson Laranjeira: Hitchcock não improvisava nada. Quando ia para o estúdio filmar, tudo estava meticulosamente planejado e ensaiado, desde a posição da câmera e seus respectivos movimentos até a colocação do menor adereço nos cenários. Isso sem falar dos ensaios exaustivos que os intérpretes de seus filmes tinham de fazer antes de começar o trabalho de interpretar propriamente dito.

Hitchcock, dando instruções ao ator Paul Newman (1925-2008), durante as filmagens de Cortina Rasgada.

Marcelo Lyra: Hitchcock é talvez o mais importante cineasta clássico do cinema narrativo, o homem que mais influenciou as gerações posteriores de cineastas.
Inácio Araújo: Um mestre da publicidade, sem dúvida. Hitchcock soube como poucos construir sua imagem: as aparições nos filmes, a divulgação de gostos excêntricos ou frases de efeito (“os atores são gado” é a mais célebre delas). É difícil dizer como Hitch desenvolveu seu agudo senso de autopromoção. Talvez ele tenha se formado nos escritórios da Famous Players-Lasky de Londres, onde começou a carreira como desenhista de legendas em 1920; talvez mais tarde, quando as vicissitudes de uma carreira ainda incerta lhe ensinaram que talento e aplicação não eram atributos suficientes para garantir a continuidade do trabalho. Seja como for, é preciso notar que Hitchcock, o personagem-público, é, antes de tudo, uma ficção habilmente plantada na cabeça de seus admiradores, tanto quanto os seus filmes. Ao criá-la, Hitch apenas desenvolveu um método descoberto ainda na juventude, quando, garoto tímido e fisicamente desajeitado, escolheu para si o papel de gordo bonachão, útil e simpático contador de piadas. Maneira de compensar o terrível handicap representado pelo porte físico, a timidez que dificultava seu contato com o mundo exterior e a educação absurdamente severa recebida na infância.

Hitchcock tinha o costume de fazer uma rápida aparição em seus filmes.
N
a foto acima, nós o vemos ao lado do ator Cary Grant, numa das sequências iniciais de Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1955).

R. F. Lucchetti: Um dos temas preferidos dos filmes de Hitchcock: o do falso culpado. Agora, penso que, em Um Corpo Que Cai, baseado num romance da dupla Pierre Boileau & Thomas Narcejac, Hitch apresentou o reverso da medalha, isto é, enfocou o falso inocente. E esse falso inocente é John “Scottie” Ferguson, um ex-detetive da polícia de San Francisco, que foi aposentado devido à acrofobia e à vertigem.

James Stewart (James Maitland Stewart, 1908-1997), interpretando John “Scottie” Ferguson, numa cena de Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958).

Ely Azeredo: Sobre o método, o estilo e o toque de Hitchcock ainda há muitos livros por escrever, apesar da já numerosa bibliografia.  Para Antonio Moniz Vianna, o toque do Hitchcock é “essa diabólica ultra maquiavélica capacidade de converter o inócuo em letal, em conferir a um lugar-comum um caráter subitamente sinistro. E não só isso – porque há o sense of humour que o cineasta não dispensa nunca, a despeito dos crimes que estejam sendo planejados ou executados durante a narrativa”.
Cássio Starling Carlos: O Hitchcock tal como conhecemos hoje, diretor de filmes esquadrinhado em firulas acadêmicas e, ao mesmo tempo, capaz de fazer os ingressos para suas retrospectivas se esgotarem em minutos, é uma invenção francesa. Durante décadas, sua popularidade foi superior ao seu status de artista. Se não fosse a teimosia dos críticos parisienses, que se tornaram cineastas da Nouvelle Vague, ele poderia ter sido condenado à vala comum dos “artesãos”. Claude Chabrol (1930-2010) & Éric Rohmer (1920-2010) foram os pioneiros, autores de um minucioso estudo (Hitchcock, Paris, Éditions Universitaires, 1957, volume 6 da coleção Classiques du Cinéma), ainda inédito no Brasil. Depois, foi a vez de François Truffaut (1932-1984) conduzir a série de conversas reunidas no livro Hitchcock/Truffaut – Entrevistas (em nosso país, esse livro teve duas edições: a primeira foi publicada em 1986 pela Editora Brasiliense; e a segunda, lançada em 2004 pela Companhia das Letras), uma das mais completas aulas de Cinema e bíblia para qualquer um que se interesse por construção e significação de imagens. Mas, antes desses livros, Hitchcock já era, ao lado do norte-americano Howard Hawks (1896-1977), o cavalo de batalha adotado pela revista Cahiers du Cinéma na chamada “Política dos Autores”, uma estratégia midiática-conceitual muito eficiente, por meio da qual alguns diretores (além de Hitchcock e Hawks, Vincente Minelli, Nicholas Ray e Samuel Fuller, entre outros) foram alçados à condição de artistas.

Ismail Xavier: No cinema de Hitchcock, o ponto essencial é este: o domínio dos meios, a orquestração do olhar capaz de capturar o espectador. Não admira que o privilégio recaia sobre a questão do suspense. Medo e expectativa compõem o lastro dessa captura, qualquer que seja a opinião que se tenha sobre o valor de tal experiência e de sua filosofia.
Jaime Rodrigues: Para Hitchcock, o mistério raramente tem suspense. “Num whodunit (quem fez isso) não há suspense, mas uma espécie de quebra-cabeça intelectual. O whodunit gera o tipo de curiosidade que é vazia de emoção, e a emoção é um ingrediente essencial do suspense. Não aprovo realmente os whodunits. No whodunit, você simplesmente espera descobrir quem cometeu o crime”, afirmou o diretor.
Georges Sadoul:  Hitchcock adora o Cinema. Sabe contar histórias maravilhosamente. Influenciado pelo Expressionismo, manifestou a sua personalidade desde o seu primeiro sucesso, O Inquilino/O Inquilino Sinistro (The Lodger a Story of the London Fog, 1927), baseado num romance de Marie Belloc Lowndes. Ele tem um incontestável sentido plástico. Prepara suas découpages como ninguém. Sabe manipular com perfeição os travellings, a profundeza dos campos, os storyboards, as filmagens a grande distância. Estas experiências divertiram-no muito.
T. G. Novais: É incontestável e merecidamente o “Mestre do Suspense”.
Georges Sadoul: Hitchcock declarou: “Um filme custa muito dinheiro, e um cinema é uma tela diante de uma quantidade de poltronas que é preciso encher. Por isso, para que os produtores, incluindo eu mesmo, recuperem o dinheiro investido na produção de cada um dos meus filmes, dedico-me ao Suspense, que é o que eu sei fazer melhor. Em algumas das minhas fitas, as pessoas gritam e não conseguem suportar a angústia. Isso diverte-me imensamente e prova que estou no caminho certo.”
Jaime Rodrigues: Certa vez, Hitchcock afirmou: “Meu amor pelo Cinema é mais forte do que qualquer moralidade.”
Inácio Araújo: Algum tempo antes de sua morte, Hitchcock propôs o epitáfio que gostaria de ver inscrito em seu túmulo: “Veja o que pode lhe acontecer, se você não for um bom menino.”
R. F. Lucchetti: Não sei se eu gostaria de trabalhar com e para ele. Mas, sem dúvida alguma, Alfred Hitchcock é o homem que mais entende de Cinema.
José Lino Grünewald: Hitchcock, o Cinema por excelência.

Hitchcock e um de seus amigos de penas.

QUEM É QUEM
A
dilson Laranjeira
– jornalista.
Alfred Hitchcock (sir Alfred Joseph Hitchcock, 1899-1980) – cineasta inglês.
Cássio Starling Carlos – crítico de Cinema.
Edmar Pereira (1943-1993) – crítico de Cinema.
Ely Azeredo (1930-2024) – crítico de Cinema.
Georges Sadoul (1904-1967) – crítico e historiador francês de Cinema.
Inácio Araújo – crítico de Cinema.
Ismail Xavier – pesquisador e professor de Cinema.
Jaime Rodrigues (Jaime Rodrigues Teixeira, 1941-1998) – escritor, editor, crítico e jornalista.
J. C. Ismael (1938-2011) – jornalista, crítico, escritor, editor e tradutor.
José Lino Grünewald (José Lino Fabião Grünewald, 1931-2000) – poeta, tradutor, crítico e jornalista.
Marcelo Lyra – jornalista, professor e crítico de Cinema.
Pedro Maciel Guimarães – crítico e pesquisador de Cinema.
R. F. Lucchetti (Rubens Francisco Lucchetti, 1930-2024) – ficcionista e roteirista de Cinema & Quadrinhos.
Sérgio Augusto – jornalista e escritor.
T. G. Novais (1922-2008) – jornalista, escritor e tradutor nascido provavelmente no Brasil.

Marco Aurélio Lucchetti é professor universitário e pesquisador de Cinema, Quadrinhos e livros populares.


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