CINEMA & LITERATURA PROGRAMAÇÃO DO MÊS DE SETEMBRO DE 2026

O Cauim, o cineclube que promove cultura e cidadania em Ribeirão Preto, prossegue com a exibição de filmes baseados em clássicos da Literatura Brasileira.
Após a exibição de cada filme, uma breve palestra do prof. dr. Marco Aurélio Lucchetti.
Lembrando: o Cauim está localizado no número 135 da Rua Olavo Bilac, pertinho do centro de Ribeirão Preto.Eis a Programação completa do mês setembro.
1º/09/2026 – 19 horas
Não Sei Viver Sem Palavras (Brasil, 2025, 81’)
Ddirección: André Brandão
É um documentário que presta homenagem à vida e à obra do escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de títulos como Depois do Sol (1965) e Zero (1974).
De forma caseira, Não Sei Viver Sem Palavras começou a ser rodado durante o período da pandemia, visando mostrar um retrato íntimo e não convencional da vida de Ignácio de Loyola Brandão. O documentário explora as memórias, obras e desejos do escritor, não de uma forma cronológica, mas vista apenas através das lentes e do afeto de seu filho, o cineasta e fotógrafo André Beltrão.
O filme tem classificação indicativa livre.
Observação: Após a exibição do filme, haverá um bate-papo com Ignácio de Loyola Brandão e André Brandão.
02/09/2026 – 16h30
Vidas Secas (Brasil, 1963, 103′)
Ddirección: Nelson Pereira dos Santos
Ftejido: Átila Iório, Maria Ribeiro, Jofre Soares, Genivaldo Lima, Gilvan Lima, Orlando Macedo, Pedro Santos, Maria Rosa, a cadela Baleia
Vidas Secas, integrante da primeira fase do Cinema Novo, é baseado no romance homônimo de Graciliano Ramos (1892-1953).
O filme mostra a jornada de uma família de retirantes – Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia – que foge da seca avassaladora no sertão nordestino em busca de sobrevivência e dignidade.
Com uma estética visceral e crua, Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) abriu mão de sentimentalismos e utilizou a luz natural estourada e o silêncio para traduzir a aridez do ambiente e a escassez de palavras de seus personagens. A célebre cadela Baleia protagoniza uma das cenas mais emocionantes e marcantes da história do audiovisual nacional, simbolizando a própria humanidade que reside naquelas vidas miseráveis.
Ao denunciar as injustiças sociais e a opressão da estrutura agrária sobre o homem do campo, o filme se consolidou como um retrato atemporal, poético e urgente da marginalização no Brasil.
Vidas Secas permanece como um retrato atemporal sobre a desigualdade, a migração forçada e o rigor da natureza. Ao dar forma cinematográfica à prosa seca de Graciliano Ramos, Nelson Pereira dos Santos construiu um manifesto estético e político que continua a ressoar com força avassaladora na cultura brasileira.
O filme tem classificação indicativa livre.

Átila Iório, numa cena de Vidas Secas.
08/09/2026 – 19h30
Bebel, Garota Propaganda (Brasil, 1967, 103’)
Bebel (interpretada por Rossana Ghessa), uma jovem de origem simples, busca escapar de uma vida medíocre na periferia paulistana. Ao ser descoberta pela indústria publicitária, ela se transforma no rosto de uma grande campanha comercial. No entanto, a ascensão meteórica ao universo das aparências, do glamour fabricado e dos meios de comunicação cobra um preço alto, desumanizando seus afetos e expondo a artificialidade do “sonho de consumo”.
Baseado no romance Bebel Que a Cidade Comeu, de Ignácio de Loyola Brandão, o longa-metragem oferece um retrato ácido e perspicaz da modernização urbana, do consumismo e da ascensão da cultura de massa no Brasil do final dos anos 1960.
Em vez de focar na estética sertaneja ou nas lutas camponesas – temas recorrentes da primeira fase do Cinema Novo –, Maurice Capovilla (1936-2021) lança o olhar sobre a metrópole industrial, a alienação da juventude e a sedução do capitalismo.
Quase sessenta anos após seu lançamento, Bebel, Garota Propaganda permanece atual, ao antecipar discussões contemporâneas sobre a espetacularização da vida privada e a mercantilização da imagem pessoal.
Ddirección: Maurice Capovilla
Etejido: Rossana Ghessa, John Herbert, Paulo José, Geraldo d’el Rey, Washington Fernandes, Maurício do Valle, Fernando Peixoto, Joana Fomm
O filme tem classificação indicativa de 14 anos.

Rossana Ghessa, interpretando Bebel.
15/09/2026 – 19h30
Luzia Homem (Brasil, 1988, 108’)
Ddirección: Fábio Barreto
Etejido: Cláudia Ohana, José de Abreu, Thales Pan Chacon, Luiza Falcão, Chico Díaz, Gilson Moura, Ruy Polanah
Após presenciar, quando criança, o assassinato de seus pais, Luzia (interpretada por Claudia Ohana) é criada no ambiente adverso do sertão, adotando vestimentas, comportamentos e funções tradicionalmente masculinas, para se proteger da violência ao seu redor, sobreviver e vingar a morte de seus pais. Sua figura altiva e a recusa em se submeter às expectativas sociais da época despertam a admiração de uns e o desejo obsessivo de alguns homens, especialmente de Raulino (José de Abreu), um sujeito violento e obcecado por ela.
Luzia Homem é uma adaptação cinematográfica marcante do romance homônimo de Domingos Olímpio (1851-1906), publicado em 1903.
Dirigido por Fábio Barreto (1957-2019), o filme destaca-se pela força dramática de sua protagonista e pela representação crua e poética do sertão cearense no final do século 19, marcado pela aridez e pelas dinâmicas sociais rígidas.
A atuação de Cláudia Ohana é o grande pilar do longa, combinando uma presença física marcante com momentos de vulnerabilidade reprimida. O filme transita entre o drama regionalista, o romance tragicamente fadado e os elementos de Western à brasileira, abordando temas como a identidade de gênero, a violência patriarcal e a luta pela sobrevivência em condições extremas.
Décadas após a estreia, o filme permanece relevante no cinema nacional, por dar centralidade a uma figura feminina que desafia papéis tradicionais de gênero em um contexto histórico profundamente adverso.
O filme tem classificação indicativa de 14 anos.

22/09/2026 – 19h30
Policarpo Quaresma, Herói do Brasil (Brasil, 1997, 123’)
Ddirección: Paulo Thiago
Etejido: Paulo José, Giulia Gam, Aracy Balabanian, Chico Díaz, Bete Coelho, Ilya São Paulo, Antonio Calloni, Othon Bastos, Tonico Pereira, José Dumont
O filme acompanha a jornada de Policarpo Quaresma (interpretado por Paulo José), um funcionário público e patriota fervoroso que idealiza o Brasil de forma ingênua e utópica.
Dirigido por Paulo Thiago (1945-2021), Policarpo Quaresma, Herói do Brasil é uma adaptação cinematográfica do clássico romance pré-modernista Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), escrito por Lima Barreto (1881-1922).
Com roteiro assinado por Alcione Araújo, o longa-metragem traduz para as telas a sátira social e a tragédia da utopia nacionalista brasileira.
Assim como a obra literária de Lima Barreto, o filme de Paulo Thiago expõe o descompasso entre o Brasil real (marcado pelo patrimonialismo, corrupção, burocracia e exclusão social) e o Brasil idealizado por Quaresma.
O filme tem classificação indicativa de 12 anos.

Em primeiro plano, Paulo José (1937-2021), numa cena de Policarpo Quaresma, Herói do Brasil.
29/09/2026 – 19h30
Sagarana o Duelo (Brasil, 1974, 104’)
Direção: Paulo Thiago
Etejido: Milton Moraes, Ítala Nandi, Joel Barcellos, Jofre Soares, Rodolfo Arena, Átila Iório, Zózimo Bulbul, Wilson Grey
A narrativa gira em torno da rivalidade entre Turíbio Todo (interpretado por Joel Barcellos) e Cassiano Gomes (Milton Moraes). Após descobrir o caso extraconjugal entre sua esposa e Cassiano, Turíbio decide se vingar, mas acaba cometendo um erro trágico ao matar o irmão de seu rival. O crime deflagra uma perseguição implacável através das veredas e poeira do sertão. A trama se estabelece não apenas como uma busca por vingança, mas como um jogo psicológico sobre honra, destino e a inexorabilidade da divina.
O longa-metragem traduz para as telas o conto “O Duelo”, presente no emblemático livro Sagarana (1946), de João Guimarães Rosa (1908-1967), levando o espectador para o sertão mineiro, um espaço que transcende a geografia física para se tornar um território existencial, mítico e moral.
O filme insere-se na tradição do cinema brasileiro dos anos 1970, que buscava dialogar com as raízes culturais do país e a literatura de invenção. Mais do que um filme sobre um ajuste de contas, Sagarana, O Duelo reflete sobre o peso das escolhas e a inevitabilidade do destino no coração do sertão.
O filme tem classificação indicativa de 16 anos.
