MAXXXINE – O SONHO SANGRENTO HOLLYWOODIANO

Bruno Ricardo de Souza Dias
Edição: Marco Aurélio Lucchetti
Já fazia tempo que uma franquia de Terror mais ligada ao público cult não chamava tanto a atenção quanto X – A Marca da Morte (X) e sua prequência, Pearl (idem).
Ambos os filmes foram dirigidos por Ti West e estrelados por Mia Goth.

Cartaz original (estadunidense) de X – A Marca da Morte.

Mini cartaz de Pearl.
Após o sucesso desses dois filmes, lançados em 2022, houve, em 2024, o lançamento da sequência de X – A Marca da Morte: MaXXXine, dirigido por Ti West e tendo, mais uma vez, como protagonista Mia Goth, que subiu ao estrelato dentro do segmento das fitas de Horror justamente devido à sua participação nessa saga.

O cineasta norte-americano Ti West, criador da chamada Trilogia X.

Nascida em Londres, em 25 de outubro de 1993, Mia Goth (Mia Gypsy Mello da Silva Goth), é a grande estrela da Trilogia X.
Devido à expectativa gerada pelo anúncio do lançamento de MaXXXine, aumentou também a responsabilidade dos envolvidos em criar algo empolgante ou surpreendente o suficiente para não só agradar – mas também chocar – os fãs, que aguardaram pacientemente por esse desfecho.
Mas será que MaXXXine conseguiu finalizar bem a Trilogia X?.
A história de MaXXXine se passa em 1985, alguns anos após os acontecimentos mostrados em X – A Marca da Morte. E a protagonista do filme é a única sobrevivente do massacre ocorrido numa fazenda no Texas durante as filmagens de um filme pornográfico: a aspirante a atriz Maxine Minx, interpretada por Mia Goth.
Em sua incessante busca pelo estrelato, Maxine está agora em Hollywood, participando de um teste para a escolha da intérprete de Veronica, uma das personagens de The Puritan 2, um filme de Terror.
Desejando ansiosamente deixar o Pornô, Maxine se entrega de corpo e alma na audição. Com isso, Elizabeth Bender, a diretora de The Puritan e The Puritan 2, vê na atriz as condições ideais para interpretar Veronica.


Nas duas fotos acima, Maxine Minx, participando do teste para a escolha da atriz que irá interpretar Veronica em The Puritan 2.

Elizabeth Bender, interpretada por Elizabeth Debicki.
Abre um parêntese.
Elizabeth Debicki, a intérprete de Elizabeth Bender, disse o seguinte a respeito de seu papel em MaXXXine:
“Acho que, para tentar ser diretora nos anos 1980, uma mulher – e há um punhado de mulheres incríveis que dirigiam filmes naquela época – teria que lutar com unhas e dentes por cada pódio e por tudo o que pudesse, para conseguir tomar decisões. Também acho que Elizabeth é um produto disso. Ela é uma espécie de acúmulo de uma resistência que surgiu por ter que lutar muito duro para estar onde está. E eu me identifico com isso. Para a maioria das pessoas, a carreira daqueles que estão no ramo cinematográfico pode parecer uma ascensão linear, mas não é. É um eterno sobe e desce, cheio de vulnerabilidade. Então, achei bastante catártico o meu personagem.”
E sobre Ti West ela afirmou:
“Ti provavelmente vai odiar que eu diga isso, mas acho que há um pouco dele em Elizabeth. Ti é um diretor muito inteligente. Ele entende que o Terror é um excelente cavalo de Troia para mensagens e atuações, dando às pessoas oportunidades de trabalhos de atuação verdadeiramente interessantes.”
Fecha o parêntese.
Enquanto isso, um serial killer conhecido como Perseguidor Noturno está matando sistematicamente jovens atrizes em Hollywood. Depois, o fato de algumas das pessoas assassinadas estarem ligadas de alguma maneira a Maxine, dois detetives da polícia procuram a atriz, a fim de interrogá-la e tentar descobrir quem é esse assassino e os motivos dessas mortes com ares satânicos.

Os detetives Torres e Williams, interpretados, respectivamente, por Bobby Canavale e Michelle Monaghan, interrogando Maxine a respeito de duas supostas vítimas do Perseguidor Noturno.
Através de um intermediário, o detetive particular John Labat, interpretado por Kevin Bacon, o assassino entra em contato com Maxine e mostra ser conhecedor do seu passado sombrio. Ele sabe do massacre acontecido alguns anos antes na fazenda do Texas, deixando Maxine preocupada. Apesar disso, a jovem atriz demonstra que nada poderá detê-la em sua busca pela fama.

O detetive particular John Labat.
Há toda uma nova ambientação em MaXXXine. Agora, temos uma estética urbana, contrastando com os ares rurais e bucólicos de X – A Marca da Morte e Pearl. O diretor de arte e o responsável pela trilha sonora do filme realizaram um trabalho extremamente competente, que hipnotiza nossos olhos e ouvidos, levando-nos a novas e interessantes sensações.


Nas fotos acima, duas cenas de MaXXXine tendo como cenário as ruas de Los Angeles, à noite.
Na primeira foto, Maxine e sua colega de trabalho Tabby Martin.
Na segunda, Maxine no interior de seu carro com chapa personalizada.
Logo percebemos que Maxine difere de Pearl. Ela não possui necessariamente uma psicopatia intrínseca pronta a aflorar. Tem, sim, um passado pesado, que influencia suas atitudes, que são uma espécie de mecanismo de defesa. Por outro lado, em certos momentos, as atitudes e reações de Maxine soam como um grito feminista. Porém, um grito feminista de estranha superação.
Esse lado feminista é detectado, por exemplo, nas críticas referentes à pressão religiosa fanática do pai de Maxine, Ernest Miller.
Ernest, que é pastor, impôs à filha um tipo de criação fundamentalista e opressora.
Assistindo ao filme, concluímos que foi esse tipo de criação que levou Maxine a fugir do pai e à sua obsessão pela fama a qualquer preço.

Algo de que Maxine não abre mão: a busca pela fama.
Desde criança, uma das frases que ela mais repete é: “Eu não vou aceitar uma vida que não mereço.”
Outra crítica evidente e pertinente é em relação ao mundo hollywoodiano de sonho, que se mostra absolutamente sangrento nas suas entranhas e totalmente falso, de plástico, quando observado em suas nuances mais perversas.
No todo, MaXXXine é um bom filme de Terror repleto de referências aos dois filmes anteriores da Trilogia X e à própria história do Cinema. Para um cinéfilo mais atento, algumas cenas da fita nos levam inevitavelmente a sorrir, reconhecendo referências a clássicos da Sétima Arte, como Psicose (Psycho, 1960) e Chinatown (idem, 1974). Entretanto, essas cenas pouco contribuem no desenvolvimento da história narrada em MaXXXine.

O diretor Ti West, tendo ao fundo a icônica Casa da Mamãe.
É na Casa da Mamãe, palco de um dos mais célebres assassinatos mostrados no filme Psicose, que Maxine busca refúgio ao ser perseguida por John Labat.
Um detalhe negativo: os personagens secundários. De maneira geral, eles carecem de um melhor aproveitamento, como ocorre com John Labat (ele até tem bons momentos) ou os personagens vividos por Giancarlo Esposito, Halsey e Lily Collins, que, infelizmente, são subaproveitados.

Giancarlo Esposito e Mia Goth, numa cena de MaXXXine.
O fato de ter bem menos cenas de maior impacto do que X – A Marca da Morte e Pearl é outro ponto decepcionante em MaXXXIne. Há, claro, uma ou outra cena mais pesada que pode nos fazer desviar o olhar. Entretanto, de modo geral, poucos momentos ficarão marcados em nossa memória.
Mia Goth, que em Pearl chamou muito a atenção, dessa vez, ainda que presenteie o público com uma boa atuação, mostra-se mais contida, devido à personalidade de sua personagem.

Maxine Minx é um dos melhores papéis de Mia Goth no Cinema.
Por sua vez, a atuação de Mia Goth é um dos destaques de MaXXXine.
Mas, sem dúvida, o principal erro cometido por Ti West em MaXXXIne foi não saber como finalizar o filme. A fita deixa muito a desejar, em seus quinze minutos finais, quando descobrimos os segredos por trás de Maxine Minx, ou melhor, Maxine Miller. É uma decepção atrás da outra. E, ao término do filme, nós, espectadores, ficamos com um inegável sentimento de frustração, no todo.
Com toda a certeza, MaXXXIne está aquém de X – A Marca da Morte e Pearl. No entanto, devido ao charme da franquia e aos bons momentos até seu fraco trecho final, o filme até que é satisfatório, nos deixando com um gosto amargo e uma sensação ambígua. Explicando melhor: podemos considerar MaXXXine como um bom filme. Mas, devido à expectativa gerada e às duas fitas anteriores da Trilogia X, esperávamos muito mais desse desfecho.

Cartaz original (estadunidense) de MaXXXine.
MaXXXine (idem, Estados Unidos, 2024, 104’)
Direção: Ti West
Roteiro: Ti West
Fotografia: Eliot Rockett
Montagem: Ti West
Música: Tyler Bates
Elenco: Mia Goth (Maxine Minx/Maxine Miller), Elizabeth Debicki (Elizabeth Bender), Moses Sumney (Leon Green), Michelle Monaghan (detetive Williams), Bobby Canavale (detective Torres), Lily Collins (Molly Bennett), Giancarlo Esposito (Teddy Knight), Kevin Bacon (John Labat), Simon Prast (Ernest Miller, um pastor da televisão), Halsey (Tabby Martin), Chloe Farnworh (Amber James), Sophie Thatcher (artista de efeitos visuais), Deborah Geffner (diretora de casting), Larry Fessenden (segurança), Charley Rowan McCain (Maxine Miller, quando criança)

Mia Goth, numa foto promocional tirada em Los Angeles, em 24 de junho de 2024, durante a estreia mundial de MaXXXine.
Bruno Ricardo de Souza Dias é licenciado em História e um grande conhecedor de filmes.