PEARL – FILME DE ORIGEM COMO DEVE SER

Bruno Ricardo de Souza Dias
E
dição: Marco Aurélio Lucchetti

Considerado já um sucesso cult, o filme Pearl, produzido, roteirizado e dirigido pelo norte-americano Ti West, é a prequência de X – A Marca da Morte (2022), que homenageia e referencia os clássicos do Slasher, um subgênero do Horror.

Cartazete original (estadunidense) de X – A Marca da Morte.
Em muitos aspectos,
X – A Marca da Morte transita no mesmo universo da franquia O Massacre da Serra Elétrica, que teve início com o icônico The Texas Chainsaw Massacre (1974), dirigido por Tobe Hooper (1943-2017).

Abre um parêntese.
Os slashers são filmes de baixo orçamento que se caracterizam por apresentarem, geralmente, um assassino psicopata que ataca e mata sem grandes motivos aparentes.
Como exemplo de slasher, posso citar, além do já mencionado O Massacre da Serra Elétrica, Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978), no qual surgiu o vilão Michael Myers. E, nesta fita dirigida por John Carpenter, temos um dos melhores exemplos de um personagem característico do Slasher: a final girl, isto é, a única garota que, no final do filme, consegue sobreviver aos ataques do assassino.

Jamie Lee Curtis, interpretando Laurie, a final girl de Halloween – A Noite do Terror.

Fecha o parêntese.
Pearl
e X – A Marca da Morte fazem parte de uma trilogia, a chamada Trilogia X, completada em 2024, com o lançamento de MaXXXine (idem).
Produzida e distribuída pela A24, uma companhia que vem se destacando por dar certa liberdade aos realizadores, a Trilogia X chamou a atenção do público e da crítica.
A estreia mundial de Pearl ocorreu em 3 de setembro de 2022, durante a 79ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Nos cinemas dos Estados Unidos, a estreia aconteceu em 16 de setembro do mesmo ano.

Na passarela do Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2022, Mia Goth, a estrela de Pearl, posa para os fotógrafos.

Cartaz original (estadunidense) de MaXXXine.

Em Pearl, podemos entender ou, pelo menos, conhecer como toda a insanidade mostrada em X – A Marca da Morte se originou.
A atriz principal de ambos os filmes, Mia Goth, também é a estrela de MaXXXine.
Nas três fitas, Mia demonstra todo seu talento como atriz.

Mia Goth, interpretando Pearl.

Um fato curioso sobre Mia Goth: ela é neta da atriz brasileira Maria Gladys (Maria Gladys Mello da Silva), conhecida por seus trabalhos no Cinema [Bonitinha, Mas Ordinária (1963), de J. P. Carvalho; Os Fuzis (1994), de Ruy Guerra; Todas as Mulheres do Mundo (1966), de Domingos de Oliveira; Sem Essa, Aranha (1970), de Rogério Sganzerla; Bar Esperança (1983), de Hugo Carvana], em telenovelas e em séries da televisão.

Maria Gladys, representando a personagem Lucimar da Silva, na telenovela Vale Tudo (1988), um dos maiores sucessos da Rede Globo.

A história narrada em Pearl se passa durante o ano de 1918, quando uma família de origem alemã vive em uma fazenda no interior dos Estados Unidos.

O ambiente bucólico onde transcorre grande parte da ação de Pearl.

Devido à sua origem e por estarmos em plena Primeira Guerra Mundial (1914-1918), essa família sofre preconceitos dos vizinhos.
A matriarca da família é Ruth (interpretada por Tandi Wright), uma mulher conservadora, religiosa, dura, intransigente, autoritária e controladora. Seu marido encontra-se preso numa cadeira de rodas, num estado quase vegetativo. A única filha do casal, a jovem Pearl (Mia Goth), sofre por estar longe do esposo, que foi lutar na Europa, na frente de batalha, e não manda notícias faz algum tempo.

Pearl, seu pai e Ruth, reunidos à mesa do jantar.

Para piorar a situação, junto com a incerteza da guerra, a pandemia de gripe espanhola está a todo vapor nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, trazendo preocupação a todos na fazenda e na cidadezinha próxima.
O diretor Ti West enfatiza as cenas em que os personagens estão usando suas máscaras, para não deixar a gente se esquecer do terror pessoal que vivenciamos nos últimos anos, com a pandemia de covid-19.
Logo percebemos que Pearl é uma garota diferente do convencional, pois possui algumas obsessões relacionadas à morte de animais, sangue e também por sexo. Além disso, ela demonstra grande dificuldade de relacionar-se com a mãe e trata o pai entrevado com uma curiosidade mórbida, para se dizer o mínimo. A falta de dinheiro da família é um grave problema que intensifica essas relações errantes. A fim de poder escapar de uma vida ordinária e sofrida, Pearl, uma apaixonada por artes como a Dança e o Cinema (na época, aquela que é considerada a Sétima Arte já chamava a atenção), sonha em ser uma estrela a qualquer custo. Então, ela fica sabendo, por intermédio da cunhada, que irá ocorrer um concurso de Dança que excursionará por todo o estado. Uma das audições acontecerá na igreja da cidadezinha. Porém, entre visitas ao cinema da cidade e a tentativa frustrada de ser escolhida para ser uma dançarina, ela descobrirá da pior maneira possível que as coisas nem sempre são do modo como desejamos, inclusive em relação ao amor e o sexo.

Pearl, pronta para realizar seus afazeres na fazenda.
V
estida com seu macacão costumeiro, ela parece uma garotinha.

Parada diante do cinema da cidade, Pearl, usando uma máscara protetora, observa o cartaz do filme que está sendo exibido.

Filmes de origem de personagem chegam com muita responsabilidade. É inevitável a expectativa que eles geram. Pois estamos cientes do que já foi feito anteriormente. E. em se tratando de vilões, há sempre o receio de se justificar demais os atos futuros, dando-lhes um passado por demais turbulento. Entretanto, Ti West soube trabalhar muito bem essa parte.
A protagonista de Pearl, que em X – A Marca da Morte é uma idosa quase no fim da vida, vivendo com seu velho marido de uma maneira escondida e misteriosa, sem quase nenhuma perspectiva e apenas com saudades de um passado que não mais voltará, aqui é apresentada com muitos detalhes que nos auxiliam a interpretar não só as atitudes da personagem, mas também compreender sua cidade e principalmente os arredores da fazenda, com seu lago soturno onde vive um esfomeado crocodilo.

Pearl, alimentando, com um ganso que ela acabou de matar, o crocodilo existente no lago.

Mia Goth, transformada na idosa Pearl de X – A Marca da Morte.

Em Pearl, Ti West escancara fatos importantes, que ajudaram a moldar o terror desse mundo criado por ele. No entanto, o destaque principal que o ajuda a materializar toda a carnificina é a atuação visceral de Mia Goth.
Mia, que foi também a corroteirista de Pearl, brilha desde os minutos iniciais do filme. Sua personagem choca, ao nos fazer entender que o melhor que ela pode oferecer é sua psicopatia, que encanta e aterroriza, até os créditos finais. Essa é uma constatação macabra, mórbida, mas incrivelmente real, dentro daquele contexto sui generis. E, se não chegamos a inocentá-la, o que seria um total exagero, percebemos que pequenos fatos do cotidiano, querendo ou não, ativaram todos os seus piores gatilhos delirantes e sua predileção pela morte. Podemos até perguntar: um destino menos desfavorável aos seus sonhos poderia ter, ao menos, minimizado sua vida terrivelmente diabólica? Porém, para tal pergunta não há respostas definitivas.

Do começo ao final de Pearl, Mia Goth presenteia os espectadores com uma interpretação intensa.
A
o término do filme, ficamos frustrados por não termos mais acesso à vida da frustrada e sanguinolenta personagem vivida por Mia.

Não há como passar por Pearl, sem se impressionar com Mia Goth.
Em X – A Marca da Morte, Mia já estava perfeita, interpretando Maxine, uma jovem atriz pornô, e também a velha Pearl. Mas o que acontece em Pearl salta aos olhos. É uma entrega total a uma personagem muito difícil, com certas complexidades. Sua atuação no filme a deixará marcada como uma nova estrela do mundo do Terror.

Mia Goth, representando Maxine, em X – A Marca da Morte.

Depois de ser a estrela de Pearl, Mia Goth atuou, também de forma excepcional, em outros dois filmes de Terror: Piscina Infinita (Infinity Pool, 2023), dirigido por Brandon Cronenberg; e o já citado MaXXXine, a sequência de X – A Marca da Morte.

Mia Goth, interpretando Gabi Bauer, a principal personagem feminina de Piscina Infinita.

Mia Goth, representando a estrela pornô Maxine Minx, é o destaque de MaXXXine.

A atuação incrível de Mia Goth em Pearl gerou um interessante e acalorado debate nas redes sociais, em razão de ela não ter sido sequer indicada ao Oscar de Melhor Atriz do ano.
Fundada em maio de 1927 e tendo como seu primeiro presidente o ator Douglas Fairbanks (1883-1939), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood surgiu para celebrar e premiar os filmes de Drama. Por esse motivo, até os dias de hoje, as fitas de gênero são praticamente esquecidas na premiação do Oscar. É muito raro filmes de Horror, Comédia ou blockbusters serem contemplados nas categorias principais. Mas acredito que esse conservadorismo da Academia pode, pouco a pouco, ser derrubado, graças a pressões dos fãs e também devido às evoluções sociais, que já conseguiram realizar algumas mudanças ao longo dos anos. A recente premiação de Parasita (2019), uma produção sul-coreana que mistura drama, humor negro, suspense e tragédia, como Melhor Filme é uma prova disso.
Finalizando: se Pearl tivesse ganho algum Oscar, teria sido, sem dúvida alguma, muito bom para o Terror. Mas, independentemente disso, Mia Goth conseguiu mostrar que as grandes atuações pertencem a qualquer gênero.

Mais uma foto de Mia Goth, caracterizada como Pearl.

Pearl (idem, Estados Unidos e Canadá, 2022, 102’)
Direção: Ti West
Roteiro: Ti West & Mia Goth
Fotografia: Eliot Rockett
Montagem: Ti West.
Música: Tyler Bates & Tim Williams
Elenco: Mia Goth (Pearl), David Corenswet (projecionista), Tandi Wright (Ruth, mãe de Pearl), Matthew Sunderland (pai de Pearl), Emma Jenkins-Purro (Mitsy, cunhada de Pearl), Amelia Reid-Meredith (sogra de Pearl), Alistair Sewell (Howard, marido de Pearl)

Cartaz original (estadunidense) de Pearl.

Bruno Ricardo de Souza Dias é licenciado em História e um grande conhecedor de filmes.


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